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Sala de descanso – Hospital Saint Claire – fim de tarde

O cheiro de café velho e álcool hospitalar ainda impregnava o ar quando o Dr. Adrian Hale encostou as costas na poltrona de couro desgastado. Os olhos, de um azul acinzentado que parecia mais frio sob as luzes fluorescentes, encaravam a xícara entre as mãos. Quente. Mas ele não sentia o calor. Fazia tempo que não sentia muita coisa.

Do lado de fora, a chuva batia no vidro com a mesma insistência de um coração que ainda pulsa, mesmo partido.

— Doutor Hale?

A voz suave de uma residente o chamou à porta.

Ele ergueu o olhar, a mandíbula firme, o olhar cansado. Ela parecia nervosa, como muitas ficavam ao falar com ele. Era bonito demais para passar despercebido — um homem que exalava uma elegância contida, como quem havia aprendido a calar a própria dor para cuidar da dos outros.

— Sim?

— Ah, desculpa… Só queria avisar que sua próxima cirurgia foi adiada. O paciente teve uma melhora súbita.

Ele assentiu com um leve gesto de cabeça.

Ela hesitou um segundo a mais do que o necessário, como se quisesse dizer algo. Mas não disse. Apenas foi embora.

Sozinho novamente, Adrian tirou do bolso interno do jaleco uma pequena fotografia já desbotada. O retrato dela.

Ela estava rindo. Sempre rindo.