Autora: Lyly Oak
https://music.youtube.com/watch?v=4cdT6wHt-OA&si=Dtg5VeM4fFMewCLK
Tem dias que eu acordo com o corpo leve, mas a mente carregada. A ansiedade não grita, ela sussurra. E o pior é que esses sussurros vão corroendo tudo por dentro — o apetite, a força, a vontade de continuar. Parece exagero pra quem olha de fora, mas a verdade é que eu vivo uma guerra invisível todos os dias.
É como estar presa dentro de um corpo que parece meu, mas não responde como antes. A fome some, o estômago revira, o peito aperta. Não é só nervosismo. É um tipo de vazio que se espalha como fumaça. Às vezes fico horas tentando respirar como se o ar fosse algo escasso. Outras vezes, simplesmente não consigo me levantar. E não, não é preguiça. É exaustão de existir.
Já desmaiei por conta de crises. Já senti o chão fugir dos meus pés sem ninguém empurrar. Já me forcei a comer algo e engoli com lágrimas nos olhos, não pela comida em si, mas porque meu corpo a rejeitava como se ela fosse veneno. E isso me fez perder peso, energia, tempo. Me fez perder partes de mim que, talvez, eu nunca mais recupere.
A ansiedade é traiçoeira. Ela se disfarça bem. Às vezes vem como um pensamento bobo, um "e se" inocente. Outras, ela vem com força, como um vendaval que arranca tudo que você achava que era firme dentro de si. Eu sorrio, converso, faço piadas, mas tem um lado meu que está constantemente lutando para não afundar. Um lado que ninguém vê. E talvez nunca veja.
Eu tento seguir em frente. Tento manter a cabeça erguida, mesmo quando a vontade é de me encolher em um canto e desaparecer. E o mais difícil é essa luta silenciosa — o mundo gira, as pessoas vivem, e eu estou aqui, tentando apenas sobreviver a mais um dia. Fingindo normalidade quando tudo dentro de mim está em ruínas.
Tem dias em que o enjoo é tão forte que me pergunto se vale a pena insistir. Outros em que o silêncio é ensurdecedor. Em que meu corpo está presente, mas minha mente está longe, como se eu estivesse assistindo a minha própria vida em terceira pessoa. Uma personagem cansada, interpretando o papel de alguém funcional.
Às vezes, só queria gritar. Mas nem isso eu consigo. Porque há um nó na garganta que nunca desfaz. Porque tudo que eu sinto é grande demais para caber em palavras, e pequeno demais para que o mundo se importe.
Ninguém entende. Dão conselhos prontos, jogam frases feitas: "vai passar", "se distraia", "é só não pensar nisso". Como se fosse simples desligar um pensamento. Como se fosse fácil se distrair quando tudo dentro de mim está gritando. Como se eu quisesse estar assim.
Não escolhi essa dor. Não escolhi esse medo constante de perder o controle. Não escolhi viver nesse estado de alerta, onde até o som de uma notificação pode virar gatilho. Onde o amanhã não é uma promessa, mas uma ameaça silenciosa.
E mesmo assim, eu continuo. Mesmo sem forças, mesmo sem sentido. Eu continuo.
Não porque é fácil. Mas porque desistir também dói. Porque, de algum jeito, ainda há uma parte de mim que espera que algo mude. Que esse peso alivie. Que eu consiga, um dia, viver e não apenas resistir.
Mas hoje… hoje é só mais um dia em que sobrevivi a mim mesma.