
https://music.youtube.com/watch?v=iSQukfxyFOU&si=ZzhH5DsRz8RbVnlq
I
A fazenda do Barão de Álvares ficava às margens do rio Pajeú, entre as terras de barro vermelho e o sussurro das palmeiras. Era uma casa de varandas largas, cortinas brancas esvoaçando, uma antiga glória de um Brasil que ainda se agarrava aos restos de sua nobreza.
Naquela casa nascera Aurora, batizada em honra ao amanhecer, mas fadada a viver crepúsculos. Tinha a pele clara de leite queimado de sol, os olhos da cor da jabuticaba madura e os pés que sonhavam tocar o chão sem sapatos, sem destino, sem dever.
Filha única, criada entre damas de companhia, missas e salões de dança. Seu pai, o barão, um homem severo, era temido até pelos próprios bois. Sua mãe, uma flor murcha que suspirava por Paris entre bordados e crises de enxaqueca.
Aurora, no entanto, era feita de outra matéria: tinha no peito uma sede de vida que o casarão não podia conter.