Autora: Lyly Oak
https://music.youtube.com/watch?v=6LASz6HAL7E&si=MBF-dgPQsPO8YBm6
A anatomia, depois da morte, é uma arquitetura desfeita.
Tudo aquilo que a natureza levou décadas para modelar com equilíbrio — músculos tensionados com precisão, vasos milimetricamente distribuídos, ossos encaixados como peças de uma máquina sagrada — é desmontado com a frieza de quem já não procura preservar, mas compreender.
Na vida, a anatomia é harmonia.
Na necropsia, ela é campo de escavação.
O que sustenta a cabeça? O pescoço — colunas delicadas, empilhadas com exatidão. Ao cortá-lo, se vê a traqueia, o esôfago, as artérias carótidas que já não pulsam. As vértebras, que um dia permitiram o gesto mais simples — virar o rosto, inclinar a cabeça, sussurrar — agora estão expostas, imóveis, como ruínas.
O tórax é o cofre das funções vitais. A caixa torácica, uma gaiola de osso e músculo, precisa ser forçada a abrir. O esterno, uma tranca de cálcio, é serrado. As costelas são alavancadas. Dentro, os pulmões encolhidos parecem envergonhados. O coração — outrora símbolo do amor — é apenas músculo. Se pesa demais, se tem a textura errada, ele fala de infarto, ruptura, falência.
E mais abaixo: o fígado, enorme, denso, um filtro natural que agora está intoxicado, manchado, talvez endurecido pela repetição de venenos cotidianos — álcool, medicamentos, raiva, silêncio.
O estômago guarda mais do que comida. Ele guarda vestígios de hábitos, pressas, angústias. O conteúdo é descrito como "pastoso", "particularmente ácido", "com odor agridoce" — terminologias secas para o que foi prazer, fome, compulsão.
Os intestinos são labirintos moles. Retorcidos. Silenciosos. Neles se lê o ritmo da vida. Paralisia? Fezes ressecadas? Sangue oculto? Tudo isso fala. Tudo denuncia.
E os rins? Dois guardiões discretos, mas implacáveis. Um rim que murchou denuncia desidratação crônica. Um que apodreceu em silêncio aponta para uma falência que ninguém notou.
E mais profundamente: o útero (se presente), o lugar da criação. Uma cavidade escura, agora vazia, onde um dia pulsou o início de outra vida. Ao abri-lo, corta-se o silêncio da geração. A anatomia reverte o milagre.
A medula espinhal — o eixo de tudo — permanece escondida até o fim. Para acessá-la, é preciso romper as vértebras, serrar o canal. E ali, dentro daquela linha frágil e espessa, está o centro de comando. A fiação que já não conduz nada.