Autora: Lyly Oak
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Após a morte, o corpo já não exige delicadezas. A precisão da necropsia dá lugar à realidade brutal da restituição. Os órgãos, depois de removidos e examinados friamente sobre uma mesa de aço, são devolvidos ao abdome como quem descarta algo dentro de uma sacola vazia. Não há mais organização, nem reverência à ordem original da anatomia. São "jogados" de volta ao interior do corpo — palavra crua, mas necessária — e costurados com uma linha grossa, visível, quase grotesca. Uma costura que não esconde nada, apenas segura o vazio.
A barriga é fechada não com intenção estética, mas com urgência funcional. Nada volta ao seu lugar com a precisão da natureza. Aquilo que um dia foi vida, agora é matéria aberta, mexida, explorada.
E se o cérebro foi retirado — como é comum — ele não volta ao crânio. Não há como. Sua consistência é mole, pastosa, quase líquida após a retirada. Recolocá-lo significaria vê-lo escorrer pela abertura do crânio serrado, vazando lentamente como uma lembrança que se esvai. O crânio permanece oco. A cabeça, um invólucro vazio.
Este é o fim silencioso e cru da investigação da morte. Não há poesia no pós-morte — apenas a frieza do bisturi, a violência da exposição e o silêncio definitivo de um corpo que não volta mais a ser o que era.
Quando o corpo é aberto, tudo que sustentava a vida é posto à mostra. O coração, os pulmões, o estômago, o cérebro — cada órgão é retirado, pesado, medido, inspecionado com o mesmo rigor com que se avalia uma peça defeituosa de máquina. Mas aqui, a engrenagem falhou de forma definitiva. E agora, sob a luz fria da sala de necropsia, ela revela seus segredos.
Um pulmão que afunda na bandeja de aço, pesado, pode estar encharcado de água — sinal de um afogamento cruel, onde cada suspiro foi substituído por desespero líquido. Pequenos pontos vermelhos em sua superfície denunciam a asfixia, como se o órgão tivesse implorado por ar em seus últimos instantes.
Se a massa encefálica aparece espalhada, como mingau branco derramado, é um aviso direto: o crânio se partiu. Provavelmente houve pancada, impacto brutal, e o cérebro — frágil como gelatina — se despedaçou silenciosamente dentro da caixa óssea.
Cada detalhe grita. Um fígado pálido já não pulsa com sangue; ele sussurra que a irrigação cessou muito antes da vida terminar. Cada órgão se torna um arquivo de evidências, uma testemunha muda da dor, do sufoco, do impacto, do colapso.
Neste momento, o corpo já não é corpo: é um relicário aberto de segredos, onde cada corte é uma confissão, e cada cor, peso ou textura é um eco final da história que foi interrompida.
A necropsia não começa com o bisturi — começa com o reconhecimento. Alguém entra numa sala e confirma: sim, esse é ele. Um nome agora reduzido a número de RG, boletim de ocorrência, e um corpo frio sobre uma mesa de inox. É retirado o que resta de humanidade: as roupas, os objetos, até mesmo os projéteis que ainda podem estar cravados na carne. Nada é deixado para trás — tudo é prova.
As impressões digitais são colhidas de dedos que jamais se moverão novamente. A pele é lavada, o corpo ensaboado como se ainda pudesse ser limpo da morte. Mas não se trata de dignidade. É preparo técnico. Higiênico. Frio. O corpo precisa estar pronto para ser aberto.
Abrir um corpo é romper o pacto com o invisível.