Autora: Lyly Oak
https://music.youtube.com/watch?v=8F1k_Bc_vwo&si=Xr5GPdRTzbMFHpUH
Há dias — talvez meses, talvez uma eternidade contida em suspiros — venho ouvindo um sussurro que não se cala. Não é um som audível, mas um eco, um sutil arrastar de vestes invisíveis pelos corredores do meu espírito. É a minha fé, em crise. Ou, quem sabe, em transformação. E o que antes era certeza firme, hoje é penumbra onde luzes dançam e sombras sussurram promessas.
Não sei mais se sou “Mórmon”.
Algo dentro de mim hesita quando me defronto com os antigos cânticos, com os cultos revestidos de simplicidade. Há um vazio onde antes havia convicção — um abismo pequeno, mas profundo, que separa o que fui do que talvez me torno. O que era familiar agora me parece eco distante, enquanto um outro chamado ressoa com intensidade crescente. Um chamado antigo, de séculos. Um chamado que tem o som dos sinos de pedra, o cheiro do incenso subindo em espirais invisíveis, e o peso tranquilo de um rosário entre os dedos.
O catolicismo me chama como um ímã.
Não com violência, não com imposição. Mas com uma delicadeza firme, como se tocasse as fibras mais antigas da minha alma — aquelas que talvez sempre souberam. Ao rezar o terço, algo em mim se acalma. Não apenas pela repetição meditativa, mas pelos mistérios que cada Ave Maria parece carregar. Há uma paz ali que não encontro em mais nada. Uma paz silenciosa, como a luz filtrada por vitrais antigos. E mesmo sem compreender todas as palavras em latim, sinto-me mais compreendida do que nunca.
“Ora pro nobis.” Que frase linda. Tão pequena, tão grandiosa. “Rogai por nós.” E eu me vejo criança de novo, implorando por abrigo, e Maria — essa Mãe que nunca reclamei como minha — me envolve num manto invisível. Um manto que não julga, que apenas acolhe.
Mas e a culpa?
Carrego comigo o peso da dúvida, como uma vela acesa em uma igreja vazia. Me pergunto se estou traindo algo — ou alguém. Sinto o olhar dos antigos irmãos de fé sobre mim, como se minha alma estivesse desviando da rota. Mas e se for justamente esse o caminho? E se meu coração estiver apenas encontrando um novo idioma para orar, um novo altar para ajoelhar?
Há beleza na cruz. Mas há algo de mais profundo quando ela é envolvida por mistério, tradição, silêncio. Quando ela paira sobre um altar coberto por linho branco, rodeada por séculos de fé, com corpos que se ajoelharam antes de mim, e vozes que rezaram os mesmos mistérios durante gerações.
Sinto melancolia, sim. Um luto pela fé que talvez esteja morrendo — ou, quem sabe, apenas se transformando. Como um rio que muda de curso, mas continua sendo água. Como um fogo que muda de chama, mas continua sendo luz.
Meus dedos percorrem as contas do terço, e cada uma parece carregar uma pergunta, uma confissão, uma sede antiga. Meu coração hesita entre a doutrina que me moldou e a tradição que me fascina. Entre a Bíblia na mão e o incenso no ar. Entre o púlpito simples e o altar adornado. Entre o culto e a missa. Entre o som das palmas e o silêncio contemplativo do Sanctus.
Quem sou eu, se não uma alma em trânsito?